quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Fundação da Cidade de Salvador


A história da Rua Carmozina
Outubro 2015, Salvador – BA

Para discorrer sobre a história da Rua Carmosina, é de grande relevância a realização de um retrospecto da história da Bahia, para pontuar momentos importante da fundação da cidade de Salvador, que contribuíram para a formação do bairro Cidade Nova, o qual originou a rua Carmosina.

 Fundação da Cidade de Salvador




Em 1534, a Capitania da Bahia foi doada a Pereira Coutinho, que estabeleceu uma vila na Barra em 1536. Em 1548, após a morte de Pereira Coutinho, Dom João III rei de Portugal, nomeou Thomé de Sousa Governador do Brasil e o encarregou da colonização efetiva da América Lusitana.
Thomé de Sousa desembarcou no Porto da Barra, em 29 de março de 1549, e iniciou a construção da Cidade. Esta construída em dois planos (Cidade Alta e Cidade Baixa), na ponta de uma Península com mar aberto dos dois lados e de forma triangular, com a baía de um dos lados. Uma localização estratégica (da Praça Castro Alves Ao Pelourinho) para facilitar a ação militar na defesa e manutenção da segurança da Cidade e do Império Colonial.
Salvador já nasceu forte para ser o Centro Administrativo do Brasil e com a função de defender a cidade e o império colonial.  Do século XVI ao XVIII foi o elo entre Portugal, Sul da África e o Litoral da Ásia. Foi uma das maiores e mais importantes cidades da América, por possuir grande atividade portuária com Portugal e suas colônias.

 A Bahia e a Carreira da Índia





Carreira da Índia, assim era chamado o sistema de frotas responsável pelas navegações de Portugal e Ásia pela Rota do Cabo entre século XVI a XVIII. Como a cidade de Salvador além de Centro Político Administrativo era um Polo Econômico importador e exportador (ciclo da cana-de-açúcar, tabaco, cachaça, álcool, madeira. Algodão), de escravos e produtos manufaturados europeus, a Carreira da Índia tinha passagem obrigatória de embarcação do comércio vindas da África, Índia e China. Permitindo a Salvador a posse de grande atividade portuária com Portugal e suas Colônias na África e Ásia.

Bairro da liberdade


Vista do plano inclinado - Liberdade - Salvador/Ba


Em meados do século XIX a Cidade de Salvador na Baía de Todos os Santos, contava com dez Freguesias Urbanas (região administrativa e religiosa da cidade). A Freguesia da Sé era a célula mater e Santo Antônio Além do Carmo era uma das maiores Freguesias de Salvador.
 Nas freguesias da Cidade Baixa situavam-se comercio, lojas, a alfândega, o artesanal, a Ribeira das Naus-construtor de embarcações, oficinas, estaleiros, etc.
Na Freguesia de Santo Antônio Além do Carmo localizava-se: Santo Antônio, Soledade, Lapinha, Campos do Barbalho e as importantes: Estradas do Rio das Tripas, das Quintas, das Boiadas e da Cruz do Cosme. Esta freguesia deu origem ao Bairro da liberdade, assim nomeada pela predominância de negros libertos na constituição de sua numerosa população.
Os negros libertos ali se concentravam e trabalhavam na lavoura, a qual abrangia uma extensa área de produção de produtos agrícolas. A Estrada das Boiadas fazia a ligação desta área com o sertão da Bahia, de onde vinha as boiadas que por ali passavam para manutenção de toda a Cidade de Salvador.
 O Bairro da Liberdade era uma área de concentração de alimentos. Em 2 de julho de 1823, combatentes que lutaram pela independência da Bahia também marcharam vitorioso os pela Estrada das Boiadas.
O Bairro da Liberdade encontra-se situado no Alto do Plano que divide Salvador em Cidade Alta e Cidade Baixa. Ambas ligadas pelo Plano Inclinado. O bairro possui aproximadamente 190 hectares de área, a qual abrange as seguintes localidades: Soledade; Lapinha Sieiro; Rua do Japão; Duque de Caxias; Curuzu; Pero Vaz; Cravinas; Bairro Guarani; Alegria; Jardim São Cristóvão e São Lourenço; também tem acesso a São Joaquim, parte do Largo do Tanque e da Baixa do Fiscal.
O Bairro da Liberdade é adjacente a outro bairros que pontuam fatos importantes do contexto histórico de Salvador, como: Caixa D’água; Pau Miúdo; Iapi; Santa Mônica; Baixa de Quintas e Cidade Nova. 


Bairro Cidade Nova

http://3.bp.blogspot.com/- LADEIRA DO YPIRANGA


No começo do Brasil Colônia, o bairro Cidade Nova fazia parte das Quintas (Salvador), também pertencente a Freguesia de Santo Antônio Além do Carmo, abrangia muito mais que a estreita área ocupada hoje, era lugar de recreio ou retiro dos jesuítas, foi moradia do Padre Antônio Vieira.
Com a expulsão dos jesuítas, a propriedade passou a ser leprosário e chamada de Cidade de Palha, devido a construção de vários casebres de palha onde eram abrigados os leprosos. Por isso denominada Quinta dos Lázaros, a qual mantinha um cemitério no largo de Quintas, que é o mais antigo de Salvador, onde estão os túmulos de pessoas que ajudaram na construção do contexto histórico, de Salvador e da Bahia, como: Cosme de Farias, Lampião, Maria Bonita. 

Em 1930, o leprosário foi transferido para Águas Claras, localidade de Salvador mais afastada do centro da cidade. Então a área foi revitalizada e recebeu o nome de Cidade Nova. Nesta encontra-se localizado o Colégio Estadual Princesa Izabel, e Escola Pública Municipal da Cidade Nova. Tem como principal via a Rua do Ypiranga e como importante referência, a igreja de São Judas Tadeu.
O Bairro Cidade Nova encontra-se situado entre a Avenida Barros reis, o Largo do Tamarineiro e Baixa de Quintas. Atualmente bastante populoso, possui escolas particulares, clínicas, academias, farmácias e muitos pontos comerciais

A Rua Carmosina


Rua Carmozina: Fotos Ventura 2015

A área que hoje ocupa a Rua Carmosina, na década de 30-40 não passava de um grande bananal, possuía uma Famosa Fonte da Bica e outras pequenas fonte de água que surgiam das pedras. Estas abasteciam as ruas próximas e parte do bairro. Era também uma área de ligação do Bairro Cidade Nova com a Linha do Bonde.
A Rua começou a surgir com a chegada de pessoas pobres trabalhadoras, vindas dos interiores e de outros estados, vinham em busca de trabalhos e melhoras de vida, muitas trabalhavam no comercio e nas lavoura das freguesias, outras nas casas dos senhores. Então  começaram a construir pequenas casas, mas só adquiriu o nome de rua com a chegada de um senhor de posses que construiu um grande sobrado no qual passou a morar e homenageou sua esposa dando o seu nome a rua, que passou a chamar rua Carmosina. Tempos depois construíram mais casas e um armazém (mercearia), que era propriedade de um espanhol.
 Com o surgimento do saneamento de água e esgoto as fontes foram aterradas, e o bananal foi desaparecendo. Hoje uma garagem de ônibus ocupa grande parte do lugar.  
 O armazém dos espanhóis continua até hoje em posse de seus descendentes, porém não mais com a força do comércio que havia antes.
Atualmente a Rua Carmosina encontra-se entre a Cidade Nova na extremidade superior, Avenida Heitor Dias na extremidade inferior e nas laterais, Alto de João Pontilho e a Ladeira de São João. 
Contribuindo com a pesquisa, um morador que nasceu e viveu por muito tempo na Rua Carmosina, através da entrevista ilustra essa história:

Entrevistado: Sr. RBA.

O senhor disse que nasceu e morou por muitos anos nesta rua. O que o senhor pode nos falar sobre a Carmosina?

Sr.(RBA.).  Nasci nesta rua em 1941, onde vivi grande parte da minha vida, portanto tenho muito prazer em reviver o passado ao falar sobre ela. Lembro-me que meus pais falavam que quando chegaram a Carmsina haviam poucas casas, era mesmo um bananal, tinha algumas jaqueiras, cajazeiras, mas o que predominava mesmo eram as bananeiras. Essa paisagem ainda alcancei. Quando criança brincava muito a sombra destas árvores.
Lembro-me também que as casas não tinham água encanada, os moradores, inclusive eu, pegávamos muita água na Fonte da Bica da Carmosina, tinha algumas casas que tinha pequenas fontes de água em seus quintais. A água era corrente, saia das pedras, a maioria das casas tinham quintal, mais que eu me lembre só duas tinham fonte.
Também tinha na Carmosina um armazém, o dono era um senhor espanhol. Ele vendia a todos os moradores da rua, muitos compravam e ele anotava para receber no fim do mês. O dono era um senhor muito bom e tinha o respeito e a consideração dos moradores da rua. Também fazíamos compras nas quitandas e padarias que já existia no Bairro da Cidade Nova. Fazíamos feira em Águas de Menino e São Joaquim.

O senhor lembra com era o Bairro Cidade Nova?

Sr.(RBA). Sim. Era um bairro tranquilo, já oferecia alguns recursos. Existia a Igreja São Judas Tadeu. Lembro que tinha a Escola Princesa Isabel, a qual permanece até hoje, a empresa de Alto falante Mercúrio, na rua Jogo da Bola e tinha uma rádio. Eu escutava muito seus programas e havia também o Cinema Mercúrio, onde nós moradores do bairro assistia os matines, eram muito bons!

A Rua Carmosina oferecia alguma opção de lazer para os moradores?

Sim. Possuía um campo de bola inesquecível, no qual joguei muita bola, eu e meus irmãos, usufruímos muito daquele campo, ficava pertinho da Fonte da Bica. Hoje no local Funciona uma garagem de ônibus.
A Carmosina era uma rua muito tranquila, por não ter saída naquela época quase não entrava carros e as crianças brincavam tranquilas. Muitos a chamavam de “Paraíso das crianças e dos Jovens”. No meado da década de 50-60, havia uma liga de dominó muito famosa chamada “Três de Fevereiro”. Esta também animava a rua com seus torneios e campeonatos.

O que o senhor acha do Bairro Cidade Nova e da Rua Carmosina hoje?

Sr.(RBA.) Apesar dos grandes recursos alcançados, é lamentável que não exista a segurança e tranquilidade que havia antes e que não exista para as crianças e adolescentes opções de lazer como naquela época. Mesmo assim vejo a carmosina como um bom lugar para se viver. A Rua Carmosina e a Cidade Nova continuam sendo privilegiados pela sua localização. Os moradores sempre bons, colaboradores e fraternos entre si.

Curiosidades

 A maioria das ruas secundárias do Bairro Cidade Nova, tem nomes de datas comemorativas do calendário baianos e brasileiro, como: Rua 25 de Dezembro; Rua 2 de Fevereiro; Rua 1 de Janeiro; Rua 24 de Junho e Rua 7 de Janeiro. As demais  são: Rua das Almas; Rua professor Sá Nunes; Trasíbulo Ferraz; Ladeira do Ipiranga; Rua da Cascata; Alto da Coruja.
O grande escritor George Amado referência esse bairro em seu livro “Capitães de Areia” quando se refere a “Cidade de Palha”. Do Bairro Cidade Nova destacaram-se algumas celebridades, como: Acelino Freitas - Popó, o repentista e escritor de cordel Bule- Bule, Antônio Ribeiro da Conceição e o campeão mundial da UFC, Junior Cigano.



Referências


MATTA, Alfredo. História da Bahia: / licenciatura em história. / Alfredo Matta. Salvador: Eduneb, 2013.
NASCIMENIO, Ana Amélia Vieira. Dez freguesias da Cidade do Salvador. Aspectos Sociais e Urbanos do Século XIX. Salvador, FCEBa/EGBa, 1986.