A história da Rua Carmozina
Outubro 2015, Salvador – BA
Para discorrer sobre
a história da Rua Carmosina, é de grande relevância a realização de um
retrospecto da história da Bahia, para pontuar momentos importante da fundação
da cidade de Salvador, que contribuíram para a formação do bairro Cidade Nova,
o qual originou a rua Carmosina.
Fundação da Cidade de Salvador
Em 1534, a Capitania da
Bahia foi doada a Pereira Coutinho, que estabeleceu uma vila na Barra em 1536. Em
1548, após a morte de Pereira Coutinho, Dom João III rei de Portugal, nomeou
Thomé de Sousa Governador do Brasil e o encarregou da colonização efetiva da
América Lusitana.
Thomé de Sousa desembarcou no Porto da
Barra, em 29 de março
de 1549, e iniciou a construção da Cidade. Esta construída em dois
planos (Cidade Alta e Cidade Baixa), na ponta de uma Península com mar aberto
dos dois lados e de forma triangular, com a baía de um dos lados. Uma
localização estratégica (da Praça Castro Alves Ao Pelourinho) para facilitar a
ação militar na defesa e manutenção da segurança da Cidade e do Império
Colonial.
Salvador já nasceu forte
para ser o Centro Administrativo do Brasil e com a função de defender a cidade
e o império colonial. Do século XVI ao
XVIII foi o elo entre Portugal, Sul da África e o Litoral da Ásia. Foi uma das
maiores e mais importantes cidades da América, por possuir grande atividade
portuária com Portugal e suas colônias.
A Bahia e a
Carreira da Índia
Carreira da Índia, assim era
chamado o sistema de frotas responsável pelas navegações de Portugal e Ásia
pela Rota do Cabo entre século XVI a XVIII. Como a cidade de Salvador além de
Centro Político Administrativo era um Polo Econômico importador e exportador
(ciclo da cana-de-açúcar, tabaco, cachaça, álcool, madeira. Algodão), de escravos
e produtos manufaturados europeus, a Carreira da Índia tinha passagem
obrigatória de embarcação do comércio vindas da África, Índia e China.
Permitindo a Salvador a posse de grande atividade portuária com Portugal e suas
Colônias na África e Ásia.
Em meados do século XIX a Cidade de Salvador na Baía de Todos os Santos,
contava com dez Freguesias Urbanas (região administrativa e religiosa da
cidade). A Freguesia da Sé era a célula mater e Santo Antônio Além do Carmo era
uma das maiores Freguesias de Salvador.
Nas freguesias da Cidade Baixa
situavam-se comercio, lojas, a alfândega, o artesanal, a Ribeira das
Naus-construtor de embarcações, oficinas, estaleiros, etc.
Na Freguesia de Santo Antônio Além do Carmo localizava-se: Santo
Antônio, Soledade, Lapinha, Campos do Barbalho e as importantes: Estradas do
Rio das Tripas, das Quintas, das Boiadas e da Cruz do Cosme. Esta freguesia deu
origem ao Bairro da liberdade, assim nomeada pela predominância de negros
libertos na constituição de sua numerosa população.
Os negros libertos ali se concentravam e trabalhavam na lavoura, a qual
abrangia uma extensa área de produção de produtos agrícolas. A Estrada das
Boiadas fazia a ligação desta área com o sertão da Bahia, de onde vinha as
boiadas que por ali passavam para manutenção de toda a Cidade de Salvador.
O Bairro da Liberdade era uma
área de concentração de alimentos. Em 2 de julho de 1823, combatentes que
lutaram pela independência da Bahia também marcharam vitorioso os pela Estrada
das Boiadas.
O Bairro da Liberdade encontra-se situado no Alto do Plano que divide
Salvador em Cidade Alta e Cidade Baixa. Ambas ligadas pelo Plano Inclinado. O
bairro possui aproximadamente 190 hectares de área, a qual abrange as seguintes
localidades: Soledade; Lapinha Sieiro; Rua do Japão; Duque de Caxias; Curuzu;
Pero Vaz; Cravinas; Bairro Guarani; Alegria; Jardim São Cristóvão e São
Lourenço; também tem acesso a São Joaquim, parte do Largo do Tanque e da Baixa
do Fiscal.
O Bairro da Liberdade é adjacente a outro bairros que pontuam fatos
importantes do contexto histórico de Salvador, como: Caixa D’água; Pau Miúdo;
Iapi; Santa Mônica; Baixa de Quintas e Cidade Nova.
Bairro Cidade Nova
No começo do Brasil Colônia, o bairro Cidade Nova fazia parte das
Quintas (Salvador), também pertencente a Freguesia de Santo Antônio Além do
Carmo, abrangia muito mais que a estreita área ocupada hoje, era lugar de recreio
ou retiro dos jesuítas, foi moradia do Padre Antônio Vieira.
Com a expulsão dos jesuítas, a propriedade passou a ser leprosário e
chamada de Cidade de Palha, devido a construção de vários casebres de palha
onde eram abrigados os leprosos. Por isso denominada Quinta dos Lázaros, a qual
mantinha um cemitério no largo de Quintas, que é o mais antigo de Salvador,
onde estão os túmulos de
pessoas que ajudaram na construção do contexto histórico, de Salvador e da
Bahia, como: Cosme de Farias, Lampião, Maria Bonita.
Em 1930, o leprosário foi transferido para Águas Claras, localidade de
Salvador mais afastada do centro da cidade. Então a área foi revitalizada e
recebeu o nome de Cidade Nova. Nesta encontra-se localizado o Colégio Estadual
Princesa Izabel, e Escola Pública Municipal da Cidade Nova. Tem como principal
via a Rua do Ypiranga e como importante referência, a igreja de São Judas
Tadeu.
O
Bairro Cidade Nova encontra-se situado entre a Avenida Barros reis, o Largo do
Tamarineiro e Baixa de Quintas. Atualmente bastante populoso, possui escolas
particulares, clínicas, academias, farmácias e muitos pontos comerciais
A Rua Carmosina
A área que hoje ocupa a Rua Carmosina, na década de 30-40 não passava de
um grande bananal, possuía uma Famosa Fonte da Bica e outras pequenas fonte de
água que surgiam das pedras. Estas abasteciam as ruas próximas e parte do
bairro. Era também uma área de ligação do Bairro Cidade Nova com a Linha do
Bonde.
A Rua começou a surgir com a chegada de pessoas pobres trabalhadoras, vindas dos interiores e de outros estados, vinham em busca de trabalhos e melhoras de vida, muitas trabalhavam no comercio e nas lavoura das freguesias, outras nas casas dos senhores. Então começaram a
construir pequenas casas, mas só adquiriu o nome de rua com a chegada de um
senhor de posses que construiu um grande sobrado no qual passou a morar e homenageou
sua esposa dando o seu nome a rua, que passou a chamar rua Carmosina. Tempos
depois construíram mais casas e um armazém (mercearia), que era propriedade de
um espanhol.
Com o surgimento do saneamento de
água e esgoto as fontes foram aterradas, e o bananal foi desaparecendo. Hoje
uma garagem de ônibus ocupa grande parte do lugar.
O armazém dos espanhóis continua até hoje em posse de
seus descendentes, porém não mais com a força do comércio que havia antes.
Atualmente a Rua Carmosina encontra-se entre a Cidade Nova na
extremidade superior, Avenida Heitor Dias na extremidade inferior e nas
laterais, Alto de João Pontilho e a Ladeira de São João.
Contribuindo com a pesquisa, um morador que nasceu e viveu por muito
tempo na Rua Carmosina, através da entrevista ilustra essa história:
Entrevistado: Sr.
RBA.
O senhor disse que nasceu e morou por muitos anos
nesta rua. O que o senhor pode nos falar sobre a Carmosina?
Sr.(RBA.). Nasci nesta rua em 1941, onde vivi
grande parte da minha vida, portanto tenho muito prazer em reviver o passado ao
falar sobre ela. Lembro-me que meus pais falavam que quando chegaram a Carmsina
haviam poucas casas, era mesmo um bananal, tinha algumas jaqueiras, cajazeiras,
mas o que predominava mesmo eram as bananeiras. Essa paisagem ainda alcancei. Quando
criança brincava muito a sombra destas árvores.
Lembro-me também
que as casas não tinham água encanada, os moradores, inclusive eu, pegávamos
muita água na Fonte da Bica da Carmosina, tinha algumas casas que tinha pequenas
fontes de água em seus quintais. A água era corrente, saia das pedras, a
maioria das casas tinham quintal, mais que eu me lembre só duas tinham fonte.
Também tinha na Carmosina
um armazém, o dono era um senhor espanhol. Ele vendia a todos os moradores da
rua, muitos compravam e ele anotava para receber no fim do mês. O dono era um
senhor muito bom e tinha o respeito e a consideração dos moradores da rua. Também
fazíamos compras nas quitandas e padarias que já existia no Bairro da Cidade
Nova. Fazíamos feira em Águas de Menino e São Joaquim.
O senhor lembra com era o Bairro Cidade Nova?
Sr.(RBA). Sim. Era um bairro tranquilo, já oferecia alguns recursos. Existia a
Igreja São Judas Tadeu. Lembro que tinha a Escola Princesa Isabel, a qual permanece
até hoje, a empresa de Alto falante Mercúrio, na rua Jogo da Bola e tinha uma
rádio. Eu escutava muito seus programas e havia também o Cinema Mercúrio, onde
nós moradores do bairro assistia os matines, eram muito bons!
A Rua Carmosina oferecia alguma opção de lazer para os
moradores?
Sim. Possuía um
campo de bola inesquecível, no qual joguei muita bola, eu e meus irmãos, usufruímos
muito daquele campo, ficava pertinho da Fonte da Bica. Hoje no local Funciona
uma garagem de ônibus.
A Carmosina era
uma rua muito tranquila, por não ter saída naquela época quase não entrava
carros e as crianças brincavam tranquilas. Muitos a chamavam de “Paraíso das
crianças e dos Jovens”. No meado da década de 50-60, havia uma liga de dominó
muito famosa chamada “Três de Fevereiro”. Esta também animava a rua com seus
torneios e campeonatos.
O que o senhor acha do Bairro Cidade Nova e da Rua
Carmosina hoje?
Sr.(RBA.) Apesar
dos grandes recursos alcançados, é lamentável que não exista a segurança e
tranquilidade que havia antes e que não exista para as crianças e adolescentes
opções de lazer como naquela época. Mesmo assim vejo a carmosina como um bom
lugar para se viver. A Rua Carmosina e a Cidade Nova continuam sendo
privilegiados pela sua localização. Os moradores sempre bons, colaboradores e
fraternos entre si.
Curiosidades
A maioria das ruas secundárias do Bairro Cidade Nova, tem nomes de datas
comemorativas do calendário baianos e brasileiro, como: Rua 25 de Dezembro; Rua
2 de Fevereiro; Rua 1 de Janeiro; Rua 24 de Junho e Rua 7 de Janeiro. As demais
são: Rua das Almas; Rua professor Sá
Nunes; Trasíbulo Ferraz; Ladeira do Ipiranga; Rua da Cascata; Alto da Coruja.
O grande escritor George Amado referência esse bairro em seu livro “Capitães
de Areia” quando se refere a “Cidade de Palha”. Do Bairro Cidade Nova destacaram-se
algumas celebridades, como: Acelino Freitas - Popó, o repentista e escritor de
cordel Bule- Bule, Antônio Ribeiro da Conceição e o campeão mundial da UFC,
Junior Cigano.
Referências
MATTA, Alfredo. História da Bahia: / licenciatura em história. / Alfredo Matta.
Salvador: Eduneb, 2013.
NASCIMENIO, Ana Amélia Vieira. Dez freguesias da Cidade do Salvador.
Aspectos Sociais e Urbanos do Século XIX. Salvador, FCEBa/EGBa, 1986.





Parabéns pelo blog! Agregando conhecimento e contando a história da Rua Carmosina! Sou moradora da rua e não conhecia a história, muito bom! Parabéns!
ResponderExcluirÉ de extrema relevância compreender como se deu a construção do Bairro da Liberdade, cidade nova e nascimento da rua Carmozina que faz parte de sua vida.
ResponderExcluirQuerida Maria Augusta
ResponderExcluirSeu blog mostra a importância do bairro da Cidade Nova, com sua história, suas fontes, sua cultura e sua gente. Gente como a pessoa entrevistada, Sr. RBA, que relembra bons momentos da sua vida na Rua Carmosina. Nome charmoso. Uma homenagem a esposa de um dos primeiros moradores. As fotos ficaram muito bonitas, mostram a beleza da cidade de Salvador, da Rua Carmosina. Como é bom saber destas histórias que compõem a própria história da cidade, dos seus habitantes, em suma, a sua própria história Maria Augusta. Parabéns pelo trabalho. Marineide Rocha
Incrível. Parabéns!!!!! Alguém conhece o autor???? Rede social
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